Falta de silos de armazenamento ameaça a superprodução de grãos no Centro-Oeste do Brasil

Enquanto a produção brasileira de grãos cresce, em média, mais de 9 milhões de toneladas ao ano, a capacidade de armazenagem aumenta só a metade disso.

Falta de silos de armazenamento ameaça a superprodução de grãos no Centro-Oeste do Brasil
Foto: Secom/Divulgação/Arquivo - RR- Boa Vista

No Brasil, a safra recorde de grãos tem ajudado a derrubar a inflação e a melhorar o saldo do comércio com os outros países, mas esse desempenho da agricultura expõe um problema crônico da infraestrutura.

Nesta época, as máquinas trabalham todos os dias no campo e elas nunca colheram tantos grãos. A Companhia Nacional de Abastecimento estima uma colheita de 300 milhões de toneladas – 16,5% a mais que em 2022.

Em um grupo agrícola que existe há 40 anos, a previsão é que a safra atual de milho tenha produção recorde. O problema é que não deve ter espaço para guardar todos os grãos.

“A capacidade estática das nossas propriedades, hoje, está em torno de 60 mil toneladas. E sobrou um pouco de soja do ano passado ainda. Esse ano, a gente deve colher em torno 90 mil toneladas de milho. Então, a gente tem aí um déficit grande de armazéns, a gente teve que colocar um pouco de milho em silos bolsas, e um pouco de milho a gente tem até a céu aberto”, conta o agricultor Osvaldo Pasqualotto.

A montanha de milho para fora do armazém do Seu Osvaldo é um desafio enfrentado por vários produtores. Em uma cooperativa que reúne 50 produtores na região de Sorriso, o milho que vem do campo passa pelo processo de secagem e, por falta de espaço no armazém, fica a céu aberto.

O déficit de armazenagem no país é crônico e piora a cada safra - e já tinha sido assunto no Jornal Nacional em agosto de 2022.

Enquanto a produção brasileira de grãos cresce, em média, mais de 9 milhões de toneladas ao ano, a capacidade de armazenagem aumenta só a metade disso.

“No ano passado, o déficit total da capacidade de armazenagem brasileira era de 83 milhões. Esse ano, salta para 118 milhões. É comum e esse ano vai ser mais grave ainda. Se vê milho sendo armazenado a céu aberto, sujeito a ataques de insetos, sujeito a ataques de roedores e, inclusive, a chuvas”, diz Paulo Bertolini, presidente da Câmara Setorial de Equipamentos para Armazenagem.

Além da previsão de safra recorde, a queda no preço dos grãos fez com que os produtores suspendessem as vendas, e isso travou o escoamento. Em Mato Grosso, maior estado produtor, mais de 20% da soja colhida em janeiro ainda ocupa espaço nos armazéns.

“A gente teve uma redução em relação ao ano passado. A gente teve esse ano também a queda dos prêmios dos portos.. E outro ponto que ainda agrava mais: nós estamos falando de produto que é cotado no mercado internacional e o dólar também acaba impactando e puxando o preço desse produto ainda mais para baixo”, explica Cleiton Gauer, do Instituto de Economia Agropecuária de MT.

O Brasil mantém um programa nacional de construção de armazéns, o PCA. Em 2023, o Plano Safra prevê R$ 6,6 bilhões em financiamentos de armazéns no PCA - R$ 1,5 bilhão a mais do que em 2022. A Abimaq estima que o Brasil precisaria investir R$ 15 bilhões em armazéns, todo ano, para dar conta do aumento da produção agrícola.

“Também precisamos desburocratizar esse acesso, principalmente dos agricultores a obter esse financiamento, que vem em boa parte do PCA. É muito longe do de ser suficiente”, afirma Paulo Bertolini,.

O ministro da Agricultura reconhece que a armazenagem é um desafio para o setor.

Fonte: Jornal Nacional